quarta-feira, 25 de novembro de 2009 - 4 Comentários

Por duas vezes, em toda a minha vida, fiquei arrebatado, obcecado, tomado por inveja ao ler um livro: a primeira, ao ler Dom Casmurro, ainda no colégio, e a segunda, bem mais tarde, ao ler Lolita.

Todo marmanjo cita o livro de Vladimir Nabokov ao babar por mocinhas muito atraentes: um dos feitos do romance é ter criado e consagrado expressões como "ninfeta" e sua variação mais específica, "lolita".
























Suas qualidades, no entanto, vão muito além: Nabokov, que era russo exilado e que tinha no inglês sua terceira língua (além da nativa, ela escrevera em francês antes de chegar aos EUA), perpetrou um dos grandes romances do século 20. Foi apenas sua primeira tentativa em inglês, e saiu aquela coisa perfeita, logo no primeiro parágrafo:

"Lolita, luz da minha vida. Labareda da minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve no terceiro, contra os dentes. Lo-li-ta."

Que se deixe claro: o protagonista da história é um pedófilo confesso, um cinquentão que matou sua namorada para ficar com a filha da mulher - uma mocinha chamada Dolores, de apelido Lolita, que tinha de doze pra treze anos. De cara, sabemos que ele se deu mal e que o livro tem o formato de uma defesa que o próprio réu preparara para o tribunal. O recheio é uma road-trip pelos EUA, na qual se revela muito mais do que gostaríamos da alma humana, do instinto masculino, da cultura ocidental - de muita coisa que tem o potencial de chocar - e foi isso que Lolita fez quando do seu lançamento, lá na década de 50. Um choque.

Transpor a literatura perfeita de Nabokov, meio Machado, meio Flaubert, para o cinema - e se servindo do seu potencial incendiário - não era tarefa fácil. Mas transformaram Lolita em filme. Duas vezes.


1962 - Stanley Kubrick inventa sua própria Lolita
A primeira tentativa, de 1962, foi feita por Stanley Kubrick, um diretor ousado, obsessivo, um gênio doentio, perfeitamente adequado à empreitada. Para o papel de Humbert Humbert (era esse o nome do protagonista), o grande ator inglês James Mason, indicado para três Oscars. Como Lolita, uma novata: Sue Lyon, 15 aninhos.

Parece perfeito, não?
















Humbert pinta as unhas do pé de Lolita no filme de Kubrick (1962).

Infelizmente, o resultado não foi dos melhores. O Humbert de Mason é atrapalhado demais, quase engraçado, abertamente ridículo. Não parece ser um homem com domínio sobre suas ações. A Lolita de Sue Lyon, compreensivelmente, é um pouco mais velha. Muito da ironia e do cinismo originais somem no preto-e-branco respeitoso de Kubrick. Houve um excesso de cuidado, por um lado, e um excesso ainda maior de liberdades em relação ao texto - especialmente os diálogos. O diretor evitou que seu filme se transformasse em um road movie. E evitou a coisa do tribunal, apostando em um final surreal com a participação de Peter Sellers. Ainda é um grande filme, mas é a Lolita de Kubrick, não a Lolita de Nabokov.

1997 - Adrian Lyne paga seu tributo a Nabokov
Décadas se passaram e quem resolve fazer sua tentativa é Adrian Lyne, diretor irregular que se especializara em thrillers sexuais - 9 e 1/2 Semanas de Amor, Atração Fatal, Proposta Indecente, Infidelidade. O ano era 1997. Como Humbert, o altivo Jeremy Irons, um cara comprovadamente convincente em papéis de homens atormentados por mulheres mais novas (vide Perdas e Danos). Como Lolita, descobriu-se a pequena Dominique Swain, então com 17 anos, mas com corpo, carinha e modos mais infantis do que os de sua antecessora.



















Jeremy Irons e Dominique Swain no filme de Adrian Lyne: Humbert mais pervertido e Lolita mais infantil, como quis o autor.


No mais, Lyne provou ser um fã que teve a sorte e as condições de retratar seu livro favorito. Botou o romance debaixo do braço e filmou um roteiro fiel ao clima de angústia e loucura imaginados por Nabokov.

(Aliás, uma das coisas que me irritam no Lolita de Kubrick é o modo como a coisa toda parece ser culpa da menina - ela parece ter controle total da situação e age como uma adulta, ao passo que Humbert padece como um joguete patético nas mãos da sua enteada. No filme de Lyne, como no livro, Humbert é um pedófilo confesso, cínico, que sabe o que está fazendo e que se entrega à perversão como quem pula de uma falésia.)

De quebra, cenas inesquecíveis do romance são recriadas com precisão e devoção - como a cena do carro, em que o estranho casal é interrompido por um policial, ou a cena do sofá, que tem o poder de deixar leitores de primeira viagem atormentados por semanas... esta ficou tão forte que foi cortada da versão final do filme, mas você pode conferi-la nos extras do DVD ou aqui, no BLOGIE:



Muita gente chiou. Críticos sérios disseram que Lyne transformou a classe e a provocação de Kubrick em pornô-soft. Disseram que o filme ficou rasteiro, pouco inventivo, burocrático. Disseram muita coisa. Mas BLOGIE discorda e declara que o interessante e absurdo Lolita, de 1962, perde de longe para o fiel e mundano Lolita, de 1997.

Até porque Kubrik, lá no início dos anos 60, não tinha mesmo como escancarar na cara da sociedade a cena em que a adolescente é enviada para o colégio interno, mas volta para se despedir do padrasto. Adrian Lyne, por sua vez, foi pras cabeças:



No fim das contas, concluo que é muito bom haver os dois filmes, para vermos, revermos e discutirmos. E melhor ainda é haver outras obras de maior ou menor valor inspiradas na história de Nabokov, como o igualmente genial folhetim Asfalto Selvagem, de Nelson Rodrigues, que gerou a série Engraçadinha e a carreira da Alessandra Negrini, ou a série Presença de Anita, que serviu para revelar a Mel Lisboa. Ou a canção Don't Stand So Close to Me, do Police, que trata de um professor atormentado por uma aluna espevitada. Ou dez ou doze contos do Rubem Fonseca e meia obra do Dalton Trevisan...

Enfim, literatura boa rende assunto pra mais de metro.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009 - 3 Comentários

Todo mundo passou por esse momento.



Melhor para quem teve sua primeira apaixonite por alguém da sua idade, e disponível, e tudo mais.

... Mas não dá pra reclamar da sina do personagem adolescente de Houve uma Vez um Verão (ou Verão de 42, conforme o lançamento em DVD recente) - apaixonar-se pela Jennifer O'Neal e conseguir uma iniciação básica com a moça, enquanto o maridão combatia na 2ª  Guerra, não era mal negócio. 

Um belo filme sobre a adolescência, uma bela atriz em seu melhor momento e uma música inesquecível, composta por Michel Legrand - uma das trilhas mais marcantes do cinema do século 20.

Para ver e rever.

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009 - 0 Comentários

Um som sincero pra começar a semana: Sá, Rodrix e Guarabyra, o trio que fundou o "rock rural" (rótulo meio besta dado às investidas brasileiras no folk rock americano misturado com MPB, nos idos dos anos 70). Aqui, eles apresentam um medley de três canções, cada uma composta por um dos integrantes (e todas grandes clássicos da música brasileira):



As canções são: Casa no Campo, do finado Zé Rodrix, que fez enorme sucesso na voz de Elis Regina; Caçador de Mim, de Sá e Tavito, que foi gravado por Milton Nascimento, 14 Bis e meio mundo; e Espanhola, de Guarabyra e Flavio Venturini, que ficou bem conhecida na voz do segundo (trilha da novela Que Rei Sou Eu?, se não me engano).

O mais bacana - e até tocante - é o final, em que eles arrematam com uma mistura dos três clássicos.

Gosto muito. É a mistura de dois gêneros que muito me agradam - o folk à Crosby, Stills & Nash e a MPB mineira do Clube da Esquina.

Boa semana a todos!

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009 - 3 Comentários

O blogueiro está na praia.

Para entrar no clima, nada melhor do que uma cena de praia, digamos, inusitada:



Esta é a abertura da bizarra comédia Zohan - O Agente Bom de Corte, estrelada por Adam Sandler - um dos improváveis ídolos de BLOGIE.

Há quem odeie, e eu entendo. Mas tive grande prazer ao ver o início SEM NOÇÃO de Zohan.

Porque não dá pra ficar levando tudo muito a sério o tempo todo. Há de se saber a hora de chutar o balde. Nisso, Adam Sandler é o melhor.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009 - 8 Comentários

Quem gosta de cinema do bom e mora em São Paulo ou no Rio de Janeiro pode comemorar sua sorte: o Centro Cultural Banco do Brasil está promovendo, desde a semana passada até meados de dezembro, a mostra "A Elegância de Woody Allen".






















A proposta é simples: todos os 40 filmes do genial diretor nova-iorquino - incluindo o último, Tudo Pode Dar Certo, ainda inédito no Brasil - serão exibidos na Mostra.

Clique aqui para ver todos os trailers dos filmes!!!

Para facilitar o trabalho, BLOGIE seleciona o que não pode ser perdido de jeito nenhum.


Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) - tido como a obra-prima (ou uma das principais obras-primas) de Allen, esta comédia venceu quatro Oscars, incluindo o de melhor filme e o de melhor atriz para Diane Keaton. Inovador, inteligente, cheio de classe, impagável. Em São Paulo: 05/12 e 13/12, ambos às 18:00. No Rio: 19/11, às 17:30, e 24/11, às 18:30.

Manhattan (1979) - BLOGIE já deixou claro em diversas ocasiões que este é seu preferido, contando com a melhor cena de abertura de todos os tempos. Os cariocas já perderam suas chances no início da semana; já os paulistas ainda têm três chances: 19/11, às 19h; 29/11, às 18h; e 09/12, às 13 h.

A Rosa Púrpura do Cairo (1984) - durante a Grande Depressão, uma mulher escapa da sua vida miserável dentro do cinema. Até que o personagem-galã literalmente salta pra fora da tela e dá uma apimentada nas coisas. Uma declaração de amor ao cinema.Sensacional. Em SP: 28/11, às 18h; e 03/12, às 17h. No Rio: já foi, parabéns aos felizardos que assistem ao filme enquanto escrevo estas linhas!

Hannah e Suas Irmãs (1986) - questões existenciais, relacionamentos complicados e o cinema como salvação. Um dos filmes que melhor resumem a obra de Woody Allen. Em SP: 21/11, às 18h; e 29/11, às 16h. No Rio: já foi, sorry.

Crimes e Pecados (1989) - aqui, os relacionamentos mal resolvidos ganham solução na base da porrada. O assassinato e a convivência com a culpa são examinados, à moda de Dostoievski. Antecipa, em quase vinte anos, o tema do clássico recente Match Point. Em SP: 06/12, às 16h; e 09/12, às 17h. Os cariocas têm ainda uma chance: 27/11, 19:30.

Tiros Na Broadway (1994) - John Cusack faz o papel habitual de Woody Allen - o de artista inseguro e atrapalhado. Um filme menos badalado, mas não menos qualificado. Dianne Wiest faz um trabalho incrível, que lhe valeu o Oscar de atriz coadjuvante. Em SP: 04/12, às 13h; e 12/12, às 18h. No Rio: 21/11, às 20h; 25/11, às 13:30; e 29/11, às 18h.

Poderosa Afrodite (1995) - Mira Sorvino levou o Oscar de atriz coadjuvante como a prostituta de boca-suja e coração de mãe que Allen encontra ao procurar a mãe de seu filho adotivo, que é um gênio precoce. um coro de tragédia grega pontua as cenas com brilhantismo. Em SP: 28/11, às 14h; e 11/12, às 17h. No Rio: não percam a seção única no dia 22/11, às 14:00.

Todos Dizem Eu Te Amo (1997) - Allen entra de sola no musical e bota grande elenco (Goldie Hawn, Drew Barrymore, Edward Norton, Julia Roberts, Alan Alda, Natalie Portman...) pra cantar standarts da música americana. Locações em Nova York, mas também em Paris e em Veneza. Classe total e uma cena antológica: Woody Allen fazendo Goldie Hawn literalmente voar enquanto dançam à beira do rio Sena. Em SP: 21/11, 20h; e 26/11, 17h. No Rio, a última exibição foi no feriado de 15/11...

Quanto a Match Point e Vicky Cristina Barcelona, considero-os igualmente essenciais, mas imagino que quem gosta de Woody Allen não deixou de vê-los no cinema quando dos seus lançamentos...

Para os paulistanos apressados, aviso que o novo filme de Allen, Tudo Pode Dar Certo, terá sua última exibição na retrospectiva nesta quinta-feira, 19/11, às 14h...

Se você perder, tudo bem: até o final do ano o filme estreia no Brasil em circuito comercial. O essencial é ver na tela grande um ou mais clássicos do mestre.

Em tempo: se eu tivesse que optar por uma única sessão, eu iria em Manhattan. Como segunda opção...vejamos... OK: A Rosa Púrpura do Cairo. Ou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Ah, eu gostaria é de ver todos!

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