Um leitor assíduo deste blog decretou: Gran Torino é o filme VIP do ano. É difícil discordar do cara: é mais uma obra-prima de Clint Eastwood, e parece ter sido concebido para coroar uma carreira única no cinema (Clint já anunciou que este será seu último filme como ator).
Clint Eastwood, vamos esclarecer, é um cara que ficou famoso como astro canastrão de faroestes. Estrelou filmes lendários do Sergio Leone (Por um Dólar a Mais, Por um Punhado de Dólares, O Bom, o Mau e o Feio) durante os anos 60. Já na década seguinte, virou herói de ação e ícone com seu personagem Dirty Harry, o policial que resolve a parada com suas próprias mãos. Artisticamente, pode-se dizer que atingiu um feito ao estrelar A Fuga de Alcatraz, em 1979. Isso tudo seria suficiente para incluí-lo no rol das grandes lendas do cinema.
O diabo é que o cara também quis ser diretor. Fez alguns filmes nos anos 70 mas, a partir da década de 80, foi acertando a mão. Em 1992, aos 62 anos de idade, dirigiu e estrelou Os Imperdoáveis, vencedor do Oscar de melhor filme. Era a coroação da carreira de Clint, um ciclo se fechando, a volta ao faroeste em grande estilo, um belo ponto final.
E aí, inesperadamente, o homem começou a enfileirar obra-prima atrás de obra-prima, filmes de todo tipo e gênero, tornando-se um dos grandes diretores vivos americanos - hoje, ele só encontra concorrência em Woody Allen e em Martin Scorsese.
Clint Eastwood completará 80 anos no próximo mês, e BLOGIE aproveita para nomeá-lo o cineasta VIP (de todos os tempos). Para homenageá-lo, listamos os melhores filmes de Clint. Confira!
Honkytonk Man (1982)
Um filme pouco conhecido e muito bom! Veja o trailer!
Começa a aparecer um dos temas centrais da obra de Eastwood: a decadência, o acerto de contas com o passado. Ele faz o protagonista Red Stovall, um homem corroído pelo fracasso e pelo alcoolismo. Está doente, em estágio terminal e resolve ir para Nashville, para tentar gravar um disco como cantor country. Arrasta, para ajudá-lo na missão, seu sobrinho de 14 anos. A visão que temos do filme é a do moleque, que vê em Red um herói injustiçado, e é pelas vias tortas do tio que ele é iniciado na vida - carros, crimes, mulheres, redenção, morte. Um belo e subestimado filme, que não fez muito sucesso, mas que pelo menos serviu como matriz para uma cópia famosa - A Encruzilhada, aquele filme do Ralph Macchio buscando o blues perdido no Mississipi.
Bird (1988)
Novamente, a música. Novamente, um homem talentoso que destruiu sua própria vida com vícios e mulheres. Só que a história, aqui, é verdadeira: Bird é o apelido de Charlie Parker, lenda do jazz retratado pela melhor bio-pic de todas (bota os recentes tributos a Ray charles e Johnny Cash no chinelo). De quebra, Eastwood encontrou em Forrest Whitaker um grande ator (até então, ele se destacava em alguns papéis segundários).
Os Imperdoáveis (1992)

O Western vira arte nas mãos do seu mais famoso pistoleiro.
Tido como a obra-prima de Eastwood, Os Imperdoáveis chega arrebentando na tela. É grande, bonito, épico, como os grandes faroestes do Sergio Leone (ele aprendeu bem a lição), mas traz uma amargura própria na mistura. Aqui, o herói consumido pela culpa tem uma dimensão humana que não aparecia nos clássicos. Clint é William Monny, um pistoleiro aposentado que, ao constatar que não se adapta à vida civil de fazendeiro, resolve encarar mais um trabalho - comprando a briga de umas prostitutas com o xerife local, vivido por Gene Hackman. Grandes atuações de Eastwood, Hackman e Morgan Freeman (que faz o velho parceiro de Monny), música épica composta pelo próprio Clint e a primeira mostra do que ele poderia oferecer como diretor. O melhor western de todos os tempos.
As Pontes de Madison (1995)
A princípio açucarado demais para o gosto masculino, As Pontes de Madison engana: é um filme devastador sobre a maturidade. E é um belo romance. Clint é o fotógrafo da National Geographic que está fazendo uma matéria sobre as curiosas pontes cobertas de Madison County. Acaba encontrando Francesca (Meryl Streep), uma mãe de família sozinha e frustrada, que lhe ajuda a encontrar as pontes e, de quebra, engata um rápido e marcante affair com o forasteiro.
A ingratidão dos filhos - outro tema que Eastwood retomaria anos depois, em Gran Torino -, o dilema entre seguir as regras (e arrefecer os instintos) ou quebrá-las (e ir pras cabeças), a cumplicidade entre um casal adulto... são muitas coisas importantes que acontecem em As Pontes de Madison, e Clint Eastwood esculpiu uma pequena e despretensiosa joia. Grande atuação de Meryl.
Sobre Meninos e Lobos (2003)

Sean Penn vai até o fim em Sobre Meninos e Lobos.
Aqui, a coisa começa a ficar pesadona. O pessimismo toma conta do velho caubói e outra obra-prima sai da sua cartola: o drama do pai (Sean Penn) que perde a filha e não consegue seguir em frente. A sede de vingança consome tudo que há de humano ou razoável no homem - e em todos à sua volta: seus amigos de infância, vividos por Kevin Beacon (que é o detetive encarregado do caso) e Tim Robbins (que sofrera abusos quando criança), são arrastados pra dentro desse poço sem fundo. Sean Penn arrebenta e ganha seu primeiro Oscar de melhor ator (tirando o doce da boca de Bill Murray, que concorria por Encontros e Desencontros).
Menina de Ouro (2004)
Um filme que pega o desavisado na curva. A primeira metade promete (e entrega) um agradável filme de redenção através do esporte, trazendo Hillary Swank como a pobretona que encontra no boxe uma chance de sair do buraco. Clint é o velho técnico ranzinza que conhece tudo do assunto, mas que, conservador, hesita em treinar uma moça. O relacionamento paterno que acaba se instalando entre eles é comovente. E aí, bem quando a moça está se dando bem - e enquanto o velho encontra nela uma boa razão para viver -, ela apanha feio, vai parar no hospital e o filme começa ir para o ralo, numa espiral de dor e sofrimento tão pesada quanto à de Sobre Meninos e Lobos. Mais um Oscar de melhor filme para o mestre.
A Conquista da Honra / Cartas de Iwo Jima (2006)
Subestimados, a dupla de filmes lançados simultaneamente são um feito impressionante: Clint mostrou os dois lados da moeda ao retratar a invasão americana na ilha de Iwo Jima, durante a 2ª Grande Guerra. A batalha é famosa especialmente pela icônica foto de soldados americanos espetando sua bandeira no alto do morro. A Conquista da Honra mostra o drama desses soldados, tornados heróis por acaso e garotos-propaganda do esforço de guerra. O filme fala mais da hipocrisia da fábrica midiática de mitos do que de guerra, embora as cenas de batalha sejam muito boas. Já Cartas de Iwo Jima traz o outro lado da história: os japoneses que sofrem a invasão na tal ilha. No primeiro filme, eles mal aparecem, tomando um tiro aqui ou já surgindo, misteriosamente mortos, em seus bunkers. Já no segundo, são seus dramas pessoais e a curiosa noção de honra deles que assume o primeiro plano. Vistos juntos, uma poderosa obra humanista de Clint Eastwood.
Gran Torino (2008)
Em cartaz nos cinemas, Gran Torino é um resumo de tudo aquilo em que Clint acredita ou se interessa: traz desde a noção justiceira dos seus faroestes e do célebre Dirty Harry, até a preocupação com o envelhecimento, com a morte, com a ingratidão dos filhos e do mundo (temas comuns aos seus filmes nos últimos vinte anos).

The Old Man and the Bear: isso que é arte.
É um testamento para a América que enriqueceu e que assumiu a cara de Clint Eastwood. A história se passa num subúrbio caidaço de Detroit (a sede da moribunda indústria automobilística americana), um bairro tomado por chineses e latinos. Tudo que é originalmente americano parece estranho e deslocado por lá: a bandeira hasteada na casa do personagem de Clint; o carro Gran Torino estacionado na sua garagem; o seu gramado sempre aparado; suas cervejas solitárias bebericadas na varanda; e o próprio Clint Eastwood, alto demais, velho demais, justo demais (e, ao mesmo tempo, intolerante demais) para o mundo em que se encontra. A partir de um determinado ponto, ele passa a enfrentar seus preconceitos, suas manias e acaba assumindo o papel de super-herói da vizinhança. Como todo personagem de Clint, portanto, carrega um peso muito grande, e sabe que pagará o preço por isso. Porque as contas que ele precisa acertar são com a sua própria consciência.
E, no momento, é o melhor filme em cartaz.
Este, sim, é um belo ponto final para a imagem de Clint Eastwood. Para a imagem, porque, como diretor, ele continua na ativa: seu próximo filme, já em produção, conta a história de Nelson Mandela no período que se seguiu ao fim do Apartheid. Morgan Freeman aparece no papel principal. Isso que é envelhecer com classe!
Por essas e outras, Clint Eastwood é o cara.
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